2009/11/14

solilóquio

mais uma vez
eu e o pensamento único e só
tentando me convencer
parecer verdadeiro

eu com medo de acabar
e feliz em seguir
o amor é a lógica do absurdo

eu sigo no caminho da idade
e vou chegar onde sou

e mais uma vez
estou só no pensamento
e quantos estão pensando agora?

eu sigo
porque seguir é o passo
o pulso
e a imagem

- seguir é a lógica da jornada

:

2009/11/07

[teresina & música]

foto: joão henrique
:

2009/11/03

lógica

todo aquele
que evidencia seu potencial
por meio da ilógica
é talvez
poeta ou ninguém

todo o ser
e o vivo
que no instante instante segura
a visão da luz
e o suspiro do ar
é o que torna esse rápido transitar
por ai
algo possivelmente único
e mera eternidade espontânea

o que veste o corpo por dentro
e dá o passo antes dos pés se elevarem
é o ilógico que pontua o tempo
o tempo no espaço
o tempo no espaço de tempo

a brincadeira social da lógica
absurda obesa e apressada
a lógica absoluta reinando sobre a loucura dos homens
o brinquedo e a brincadeira
- a lógica.
ôh, meu deus! a lógica

o medo medido no desaforo
no desabafo a aventura
todo o potencial para a ilógica
feito andar para trás e o fim começar de novo
assim
feito delírio

soberbo é o deus bêbado dos poetas
sem deus, o poeta seria um bobo
ou mesmo se deus não viesse tanto quando os poetas estão bêbados,
não pensariam os poetas que deus está bêbado também
isso é a ilógica das aparências
- deus, cuidado com as companhias, não te mete com poetas!

bastante ilógico
ver o pensamento esmolando manchete
ou
nem ao menos topar com esta velha demente a comprar cosméticos numa loja de conveniência
tudo imerso na razão do pensamento poético
que nada tem a ver com a lógica
e o poeta é um triste filho devedor do belo absurdo normal*
que pisca e acena quando já foi

_______________
*o normal em nada é, ou parece ser, lógico

:

2009/10/22

a insustentável leveza do ser

abriu a porta. entrou. pôs sobre a mesa o livro que trazia. ficou pensando. gozar de olho aberto ou fechado?
- oi meu amor
- olá minha querida
depois de uma conversa sobre como foi o dia. começa a conversa que vai desaguar no amor. na hora do gozo. a duvida. gozar de olho aberto ou fechado? no meio do sexo oral, sentindo todo o delicioso gosto do cheiro, se perguntava: olho aberto ou fechado. deslizava os dedos na barriga, sentia os arrepios. olho aberto? olho fechado? roçou o rosto no púbis, na barriga, entre os seios, mordeu o queixo, lambeu os lábios. olhou nos olhos de seu amor. fechar os olhos, abrir os olhos. um riso cínico no instante em que seu pau deslizava nas curvas a procura da buceta.
o deslize a dentro.
beijava. gemia. respirava. roçava. esfregava-se. ora de olhos abertos, ora de olhos fechados.
vinham os sussurros que antecedem o gozo. o frenesi. o não saber e ser guiado pelo instinto. aquilo que guia o homem quando ele pára de tentar ser racional.
olhos abertos. olhos fechados.
no instante do gozo fechou os olhos de desespero, sentido desmanchar-se dentro da fêmea. do amor. do sexo. do gozo.
dali a instantes estaria deitado olhando o teto. suado. deslizando os dedos nos mamilos, brincando de círculos.
- meu bem, o Milan Kundera está me enlouquecendo
- meu amor, você é doido, mas eu te amo.
depois que a amada caiu no sono. ele levantou e foi ao banheiro. lavou o rosto e se olhou no espelho. disse à própria imagem:
- tu vai ver Kundera, amanhã eu gozo de olho aberto.
voltou a cama. viu as curvas de um belo corpo. deitou-se junto. quase dentro. dormiu grilado. gozar de olho aberto ou fechado?
sobre a mesa repousava A insustentável leveza do ser
:

2009/10/20

[viver]

inventando realidades
e suportando as que inventam pra mim
:

2009/10/17

[...]

tudo torna-se,
ou pode tornar-se,
perturbação colorida
esquizofeliz
o douto de si

toda observação, todo instante, todo som de cada instante.
laranja é a tarde
azul é o cheiro da chuva

alheio alheado alheamento
penso tão torto que me assusta sempre seguir para a frente,
alheio.

nem tudo pode ser dito ou comprimido no espaço de algo dito tudo.
mas tudo pode tornar-se um colorido perturbador

:

2009/10/16

...

a espera
foto: paola dutra
:

2009/10/07

dialética da possibilidade

isto
ou não
aquilo, ou não

ou não isto
ou aquilo
ou não

assim, ou não
sim ou não
não ou não
ou não

- então é assim?
- ou não!

:

2009/09/18

silêncio gritante

O estilhaço de gritos meus contidos, me explodem em silêncio
feito uma canção nos ouvidos de quem segue, a todo custo de seguir
sem saber dos custos da vida alheia, mas de suas próprias dívidas
a pagar-se pena a si mesmo, no degredo de continuar

Acima da escuridão além da falta de caminho ou direção
um caminho leva, os pés cavam, a terra anda sobre meus passos
e o riso é o desdobro da inconveniência, o risco é a aventura consciente

Quem anda quem dorme quem grita quem canta. E quem não grita?
Quem joga versos numa bolsa e segue em frente
Quem escreve gritos pode me ouvir, quem silencia não ouvi nada

Um estardalhaço silente me canta aos recônditos cantos de uma cabeça tonta
A embriaguez é o resultado da chatice alheia e o meu riso não é vale transporte
Arvore homem carros – máquinas, maquinaria infinita
Um corpo no espaço sobre um gigantesco pedaço de terra, pequeno pedaço no espaço, espaço em cima do nada
- quem segura o nada deste infinito universo?

Meus gritos e meus versos guardados em mim mesmo
é minha garantia de nada



:

2009/09/14

conversa romantica

meu amor, vamos conversar
ate a conversa virar amor

:

pós modernidade

o tempo é pouco,
mesmo quando é muito

:

2009/09/02

[vida de artista]

arte
art
ar
artista
ar
art
arte
:

2009/09/01

[teresina & música]


foto: joao henrique
:

2009/08/31

real impressionismo


foto: joao henrique
:

2009/08/18

[arte]

o encéfalo,
[theatro 4 de setembro/29,07,2009]
[bruna de oliveira, raphael gerardo, guy dhegaly, diego nery]
foto: joao henrique]
:

2009/08/13

[Pió-ir, Alguma coisa agora]



foto: joao henrique
:

2009/08/10

recortArte

Pió-ir [pra ficar]
foto: joão henrique
:

2009/08/04

Musical, Pió-ir, Algumacoisagora

theatro 4 de setembro// 12 de agosto// 19:42h// 1 R$


com:
maykell frances
joniel veras
hugo dos santos
marsone araujo
alexandre boaventura
bruna de oliveira
poliana
fernando araujo

direção musical: maykell frances
cenografia: amaral e joniel veras
coreografia: datan izaká
produção e direção: joao henrique vieira

:

2009/07/28

[...]

a cor do teus gritos
coloriu meu quarto
e o silêncio fugiu envergonhado
ao te ouvir sorrir


:

2009/07/26

[teresina & música]

fernando araujo/fragmentos de metrópole
[músico e compositor]

foto: joao henrique
:

2009/07/25

[teresina & música]

foto: joão henrique
:

2009/07/17

[também apague, porém - e também - leia]

ando e sorrio
tanto tanto quanto antes e mais do que há tempos
ando e sorrio
só feito besta
quem vê de longe pensa que é àtoa, e eu rio mais ainda

- ahh

ora homem adulto
ora menino magrinho, meio tonto
mas segue
um passo é tão importante quanto tudo que você carrega nele
o que move o passo
o que move o próximo

- olha no espelho e faz cara de sério, quase mal
mas escorrega uma risada cínica e alegremente cincera

torto e teso

- o riso é o avesso do tédio
- está vivo é saber que alguma coisa move uma outra coisa no espaço
o corpo é o espaço que transita no espaço

uni[os]versos
o que move o diferente
o único
está vivo é unico

- risos àtoa não enfeitam uma festa alegre,rsrsrs

eu rio e risco
arisco correr o risco de perder meu riso
tempo, transito,
espaço , ser
corpos
espaços e corpos
enegia
movimento
corpo
espaço
o mesmo
o mesmo corpo
no corpo dp mesmo no mesmo espaço
espaço
mesmo corpo




joao henrique,

17 de julho de 2009 de uma tarde linda em teresina

2009/07/15

[teresina & música]


captamata
foto: joao henrique
:

2009/07/11

glória de escritor

segurou por horas a fio a página em branco. fez uma cara de tristeza e impotência.
pegou a carteira e olhou se os trocados davam pra comprar um vinho barato. vestiu uma camisa velha que lhe dava sorte. aumentou o volume do som e saiu. foi até o mercadinho da esquina. olhou a cara do dono. um cretino. todos sabiam, ele mesmo devia saber que era um cretino e possivelmente se regozijava por isso. não disse nada. pôs sobre o balcão uma garrafa de vinho e pediu uma carteira de cigarro.
- vai ter festa? perguntou o cretino.
- todo dia é festa, mas só quem tá vivo sabe disso.
- é?
- é
pagou e saiu. voltou. pediu o fósforo e acendeu o cigarro dentro do mercadinho, só pra sacanear o cretino. voltou pra casa. acendeu as luzes, tirou as roupas. transitou nu pela casa.
Todo mundo devia andar nu, disse a si mesmo.
encheu um copo. acendeu outro cigarro. amassou a página em branco. pegou um exemplar de Numa Fria, do Bukowski.
abriu e folheou. começou a ler um conto...
"Esse era o problema de ser escritor, o problema principal - ócio, ócio demais. A gente tinha de esperar que a coisa crescesse até poder escrever, e enquanto esperava ficava doido, e enquanto ficava doido bebia, e quanto mais bebia, mais doido ficava. Não havia nada de glorioso na vida de um escritor nem na vida de um bebedor..."
fechou o livro.
Porra, o bukowski é foda!
bebeu mais um gole. encheu o copo novamente. aumentou o som e ficou dançando nu. jogando vinho nas folhas em branco.

:

[cores]



arte: joao henrique
:

2009/07/02

baú

Procurou uns versos antigos
que falassem de dores velhas
de riso amarelado
Encontrou um monte de sombras e sobras do que era
E não disse nada


:

2009/06/29

teresina [carne-e-osso]


josé augusto
[escritor e publicitário]
foto: joao henrique
:

2009/06/24

teresina & música








fotos: joao henrique
:

fotoplastia



caminhos
arte: joao henrique
:

2009/06/22

infância

foto: joao henrique
:

2009/06/21



renato barros

[músico e poeta]

foto: joao henrique

:

teresina [carne-e-osso]


guy dhegaly
[poeta]
foto: joao henrique
:

2009/06/19

escombro

A saudade avança feito um batalhão
a vida que há se enche de lembranças
e viver é um recortar e colar de instantes idos
no instante presente que sufoca o instante próximo

O batalhão avança cheio de fantasmas bêbados
fantasmas mortos e vivos
fantasmas de um mesmo homem que enfrenta o próprio batalhão
numa guerra silenciosa que lhe risca o rosto
e quão mais longe for
e mais longa for a jornada
maior a luta contra si mesmo
e o mundo e toda a gente
não passa de figura pálida colada sobre o branco da memória

Na guerra de agora sobre o que já foi
o homem junto ao próprio batalhão
sangra e chora em silêncio
atravessando as fronteiras do vasto mundo que há em si
na trincheira de um quarto escuro
- ou de um quarto claro que ofusca -

:

2009/06/16

infância

foto: joao henrique
[Pedro II]

:

2009/05/24

[cores]


arte: joao henrique
:

2009/05/20

(...)

o infinito é pequeno
o vazio transborda
e o dicionário insite em conceitos
- inefável é o que não se exprime

:

2009/04/24

(...)

Eu tenho uma cabeça redonda
eu tenho uma cabeça redonda e duas orelhas
eu tenho uma cabeça redonda duas orelhas e dois olhos
eu tenho uma cabeça redonda duas orelhas dois olhos e um nariz
eu tenho um cabeça redonda duas orelhas dois olhos um nariz e uma boca

Por isso eu penso falo e creio
subjetividade é a matéria concreta de minha cabeça com todas estas cavidades

Tenho um corpo que teima em andar para o fim
e minha cabeça, cheia de subjetividade, me faz eterno e infinito
esta louca subjetividade, podem pensar em suas cabeças, é coisa de minha cabeça cheia de cavidades que cheiram que vêem que escutam que falam

Estas subjetividades são o que está encrustado nessas cavidades que fazem minha cabeça que está sobre esse corpo

Eu tenho corpo e cabeça
sorriso e vergonha
tenho preguiça na cara e fogo no corpo
sou uma concretude que vaga na subjetividade de um espaço concreto e asfáltico
tenho língua e educação
tenho corpo prazer pau e poesia
obscenidades poéticas no vago do espaço que ocupa e subjetiva em delírio e contemplação o concreto do espaço subjetivo que se espreita entre os dentes do meio riso que aos poucos invadirá a solidez da mente que engana o corpo
outro corpo com cabeça redonda duas orelhas dois olhos um nariz e uma boca
corpo e cabeça cheia de cavidades que me absorvem sem aperceber-se
corpo corpo cheio de cavidades prazerosas

:

2009/03/23

teresina [carne-e-osso]


foto: joão Henrique
:

a despeito de tudo...

tudo é belo
e doido
o medo de sair é loucura
o seguinte:
se eu alimento meu ego com meu próprio lirismo,
como poderei levar o mundo tão a sério?

pessoas morrem e eu faço poesia
pode valer alguma coisa
feito uma palavra
uma conversa
sossego pra cabeça doentia

- o mundo está delirando em febre
tudo é escandaloso
tudo é fantástico

o labirinto é sem portas
sombra à bruxulenta luz
memória falha

labirinto
- rua de casas coloridas e gente simpática -
lúdico labirinto

:

2009/03/12

[...]

joao henrique

2009/02/26

Tá massa

- olha aí se tá limpo, enquanto eu bolo...
- de boa, mas pensando bem, tá sujo, tá sujo. Aquela meninazinha que vai ali com aquela mulher, ela é uma a/gente disfarçada, aquela mulher meio deselegante à meia idade, ao lado daquela menina bonita, ela é outra a/gente, a menina bonita é o disfarce dela, esse homem aqui ao lado, todo sujo, de cabelo assanhado e barba enorme e desalinhada, ele é outro a/gente, a sujeira dele é o disfarce, é um a/gente, esse brinco no nariz é um microfone, o cachimbo no bolso é uma câmera, tá sujo, tá sujo! Olha aquele carro parado na esquina, lá tem um a/gente que vai receber uma mensagem daquela meninazinha e passar outra mensagem praquele cara que vai ali de bicicleta, tá sujo, tá sujo!
Todo mundo é a/gente, todo mundo é suspeito. Tá sujo, mas tá massa, acende, então acende, o cara vendendo milho é outro a/gente, o milho é o disfarce, o carro que abastece a lanchonete com cana-de-açúcar tá cheio, lotado de a/gentes, o cheio e o lotado são o disfarce deles.
toda/gente simpática é a/gente.
A gente é a/gente também, e nem sabe.
Tá sujo, mas tá massa.
João Henrique
Fábio Luiz
.
.

2009/02/22

88...

Havia memorizado o numero do telefone. É fatal, é sintomático, disse.
- quê que é sintomático?
- ter decorado o numero, 88...
- que numero?
- o dela.
- só porque tu decorou o telefone tu tá dizendo que ta apaixonado de novo...
- é batata, como dizia o Nelson Rodrigues.
- quer dizer que só porque tu sabe o telefone dela, tu tá convicto de que...
- 88... eu poderia ligar e dizer "oi, minha querida...", mas agora eu já não consigo, toda ligação já me deixa nervoso, penso que ela tá vendo na minha cara, escrito "quero ficar contigo, depois você vai descobrir que eu sou uma fraude, vai me abandonar, eu vou fazer uns poemas ou quem sabe umas canções e tudo bem..."
Eu sei de cor o telefone dela, e nem faço esforço pra isso, disse ao amigo. Depois bebeu mais um gole, deu um trago no cigarro, encheu novamente o copo.
- qual a última vez que tu ligou pra ela?
- não sei. Mas foi por esses dias.
- disse o quê?
- que queria sair
- então tu disse a ela que tava...
- não, disse pra sairmos, em grupo, pra conversar e tal.
- qual o numero?
Que importa?, disse meio lacônico, e ficou a repetir quase mentalmente, 88... 88...
Sabe, as pessoas têm inúmeras maneiras de descobrir que estão apaixonadas, ou pelo menos interessadas umas nas outras. Das mais comuns, feito perder o assunto, gelar a barriga, suar as mãos, e até mesmo os indícios mais esdrúxulos. Ele sabia que não decorava o numero de uma mulher à toa.
Passava horas discando o numero e ligando a cobrar apenas por saber que não daria certo a ligação. Mas a cada tentativa, mesmo com a certeza de que não completaria a ligação, pensava que poderia, não mais que de repente, dá certo a tentativa...
- este numero não recebe ligações a cobrar ou não está disponível no momento, repetia Ele a mensagem, e já era quase íntimo daquela secretária eletrônica.
- liga pra ela, eu tenho bônus
- não posso, não tenho o que dizer
- diz qualquer coisa
- não se pode dizer qualquer coisa a alguém que se esteja interessado, apaixonado ou sei lá o quê... ainda mais quando esta pessoa não foi conquistada, ainda...
- eu até tava querendo te ajudar, mas
- 88...
Repetiu algumas vezes, mas não ligou.
No dia seguinte entrou numa farmácia, comprou créditos, preparou uma bela mensagem, marcando encontro no local que sempre iam, com uma carinhosa e discreta declaração.
Mandou a mensagem a um numero errado. E disse a si mesmo:
- é foda, eu sei a porra desse numero, e não consigo esquecer, isso é sintomático.
88...
:

[in]discrição

Ninguém viu,
todos riram
:

2009/02/18

depois de chuva e saudade

Volta de casa às pressas, se protegendo dos primeiros pingos mais fortes da chuva que se anuncia - chuva das fortes, que ao pé da letra se poderia dizer intempestiva. Chega em casa já meio molhado, olha os papéis que trazia à bolsa pra ver se não os havia molhado. Joga a roupa molhada em cima de uma cadeira qualquer. Depois de jantar, vai até a porta e olha a chuva, fuma um cigarro - pensa que já não devia mais fumar, mas fuma.
- mas é só um, diz a si mesmo. Dá a ultima tragada e joga fora a bagana ainda grande. Despe-se e vai para a chuva.
Posta-se como uma estátua embaixo da bica d'água que dá para a calçada, em frente a casa do vizinho. É uma estátua de lembrança, no sentido que se paralisa a lembrar de quando menino.
- será que as estátuas lembram-se de algo em suas cabeças de bronze, em seus peitos de mármore? ninguém lhe ouve - e Pedro por certo sabe que não é ouvido
- ninguém escuta o silêncio das estátuas também, e elas não gritam de desespero. Sabia que não lhe ouviam de novo, apenas seus próprios fantasmas.
Gritou.
Chamou por seus amigos. Os que eram apenas lembranças. Os que eram saudade - e há, para quem não sabe, diferença entre pessoas saudosas e pessoas lembradas. Chamou pelos amigos mortos, os amigos idos, e mesmo por amigos inconstantes - dos que encontramos por acaso num bar qualquer, sem compromisso prévio. Gritou, apenas. Parece que ninguém ouvia suas saudades e lembranças.
Fechou os olhos. Correu num sonho, numa tarde de chuva, numa brincadeira de criança.
Abriu os olhos, e se descobriu - ou imediatamente se lembrou - nu. Achou-se meio idiota, mas logo lembrou que sempre anda vestido e sentiu-se um rei, um pequeno herói, ou um mero alguém saudoso e sem pudor - que será mesmo pudor?
A chuva diminuiu e ele voltou a casa, vestiu-se, sentiu frio - só dentro de casa a chuva se faz realmente fria.
Dormiu com frio e cheio de saudades.
Lembrou de tardes com chuva e sol.
Acordou sereno
:

2009/02/06

FSM 2009





Forum Social Mundial 2009
[Pará/ Belém/ Brazil/Terra]
fotos: Joao Henrique
:

2009/01/13

recorte


Foto: João Henrique
:

2008/12/31

privacidade

o lugar mais seguro do mundo
é o banheiro
tanto faz ficar nu
- eu até gosto -

vejo eu mesmo
converso comigo
- eu preso no espelho -
- e aí, como vai a vida?*
-de boa. Descobri que vou morrer, mas ainda tenho um monte de coisas a fazer. Mais pelos outros que por mim mesmo. Isso é foda, eu dou minha estadia no mundo pelo próprio mundo, e ele nem me dá bom dia

O lugar mais sagrado do mundo
é o banheiro
pego no meu pau e nem parece escandaloso,
eu canto do meu jeito e ninguém reprova

Meu lugar é o banheiro
eu sou meu banheiro
- limpo ou sujo, depende do amigo que visita -

Tenho estado de portas abertas pro mundo,
perco a linha da estabilidade todas as vezes

Talvez me digam inteligente perdido
ou
arauto embriagado de uma geração por um triz

Eu já não tenho vergonha
eu canto
do meu jeito eu canto

Meu mundo vai ao banheiro meio imundo que deixei,

O mundo que vocês não sabem
é o que eu profetizo no banheiro

- dou conselhos maravilhos ao mundo

Meu mundo as vezes cheira mau,
às vezes está digino de uma trepada,
com amor,
ainda que às pressas

queria todo o mundo cantando e dançando no banheiro,

os burocratas bêbados
e o estudante poeta
desiludido feito um disco de Belchior
____________________________
* cumprimento do cineasta Alan Sampaio

:

2008/12/29

arte


o caçador de cogumelos
Arte: João Henrique

foto: João Henrique

:

2008/12/27

()

Eu

foto: Patrícia Basquiat
arte: João Henrique
:

2008/12/13

teresina [carne-e-osso]



Maykell Frances
[escritor, compositor e arranjador]

foto: João Henrique
:

gritos a fora